03 Agosto, 2011
Samba para Elza
Ouça-me das nuvens
Olhe meu coração
Voa minha alma
Deixe-me sem os pés no chão
Assim como se pudesse
Arrancar do mar
Os peixes sem razão para nadar
Ouça meu canto
E leve-me para o ar
Em resposta darei
Um canto mais calmo
Alegres jasmins
E meus pés flutuantes
Um samba enfim
14 Março, 2010
A Menina Grita.
A menina dos pés desnudos, do sexo mudo e a garganta cortada.
E a menina canta!
A menina das noites sem sombras, dos dias de chumbo.
A menina de câncer, a menina de peixes, dos olhos de tigre e da boca de lixo.
E a menina fita!
A menina do escarro, a menina dos gumes, a menina de linho.
A menina abortada, a menina da guerra, a menina sorrindo.
E a menina sangra!
A menina que cheira, a menina de vidro.
A menina amanita, a menina e o filho.
E a menina corre!
A menina das larvas, a menina daninha.
A menina de amarelo, a menina de espada e as unhas de zinco.
E a menina mata!
A menina sem quadro, a menina tem cinzas, a menina queima.
A menina foge, a menina teme, a menina morde.
E a menina não morre!
21 Abril, 2009
descompasso.
25 Março, 2009
Marbre.
Julio acordou com um gosto amargo na boca e as mãos amareladas pelo o cigarro que o acompanhou durante a madrugada. Levantou, foi para a cozinha, coçou o saco quando a sogra começou com suas lamurias rotineiras. Deu uma acenada para a mulher que estava comendo suas sementes matinais e foi para o banheiro.
Olhou-se no espelho, reparou nos fios grisalhos que cresciam, sem autorização, na sua barba ruiva, notou que os seus olhos perdiam o brilho dia após dia. Começou a pensar na sua vida, nos planos perdidos. Foi interrompido pelos gritos histéricos da mulher incomodada com os berros da filha.
Pegou um copo de café fraco e nauseantemente doce, acendeu o primeiro crivo do dia. Pensou em Laura e em como seria bom acordar nos braços dela, sempre tão receptivos.
Saiu atrasado para pegar o ônibus, passou antes no boteco para comprar um maço de cigarros e depois bateu cabeça pra São Jorge.
Durante o trabalho, pela quarta vez na semana, a colega da esquerda o chamou pra uma rapidinha no vestiário. A diferença entre ela e a mulher era a bunda, somente isso, mas era melhor que ficar carimbando recibos.
Voltou pra casa. Não havia mudado muita coisa por lá durante o dia.
Mal dava para comer com aquele cheiro do remédio para as varizes que a sogra usava nas pernas.
Depois de assistir as notícias que passavam na televisão, na companhia de uma cerveja quente, foi para o quarto e fez sua obrigação como marido, uma trepada rápida e barulhenta para a mulher poder dormir, e assim não se incomodar com a voz aguda que ela tinha.
Era alto da noite e ele ainda acordado, com olhos ativos e mãos em busca de algum prazer real. Foi para a janela da sala e lá a lua iluminava o rosto de Laura.
Tinha prometido a si mesmo não mais procurar os receptivos braços de sua amante amada, mas a solidão o sufocava, a angustia lhe causava úlceras pelo corpo inteiro. Não resistiu, abriu a porta e foi para o jardim dos fundos.
Fez suas juras de amor e paixão louca, beijou intensamente cada parte daquela imagem viva da Vênus.
Chorou como criança sentindo o calor daquele corpo, a excitação de ter aqueles seios miúdos entre as mãos rasgava-lhe as calças.
Sentiu o prazer que tanto queria, que tanto buscava em outras mulheres, mas só Laura sabia o dar. Adormeceu aos pés dela com um sorriso leve de gozo completo.
Do quarto a mulher, tonta pelo o sono, observava-o entre as flores e sob aquela velha estátua de mármore que enfeitava o jardim, sem entender muito bem o que de tão maravilhoso o marido via naquele monte de pedra em forma de mulher.
15 Março, 2009
Quase paz.
Hoje vejo seu rosto com clara vida.
Hoje posso oferecer o que a lua me exige.
Há dias tenho sonhos de luxúria viva.
Há dias desejo tua língua feito faca romper a minha.
Meus instintos desnudam-se ao buscar teus olhos
E o teu cheiro embebeda-me, vagueia em desordem pelo meu corpo.
Procuro o veneno em tua face escondida para poder morrer.
Procuro o teu sagrado para poder viver [...]
11 Março, 2009
Texto Sem título
E aqui, dentro de mim, nada apodrece, nem mesmo você.
04 Março, 2009
Ad corpus.
- Essa vida e todas as outras!
- Você daria a vida por mim?
- Daria três vezes, se assim fosse preciso!
- Você me ama?
- Querida, assim você exige muito de mim! Já disse que te dou minha vida, mas deixa o amor de lado. Agora venha cá e deixa eu entrar em você!