descompasso.

"É o que pulsa o meu sangue quente
É o que faz meu animal ser gente
É o meu compasso mais civilizado e controlado" Rô Rô.


Louco e tirano. Pisando nos rastros deixados pela própria morte.

Seu sexo, nunca ferido

A reza imperfeita, o Deus que nega, o Diabo que aceita

O sangue que escorre do ventre, a água que bebe

O filho perdido, a semente que cresce

A dor, o alívio pedido

Descompasso, ritmo

A fúria, paz desmedida

O amor, teme-se o desconhecido

Desordem, desordem...


Cala coração


Marbre.

Julio acordou com um gosto amargo na boca e as mãos amareladas pelo o cigarro que o acompanhou durante a madrugada. Levantou, foi para a cozinha, coçou o saco quando a sogra começou com suas lamurias rotineiras. Deu uma acenada para a mulher que estava comendo suas sementes matinais e foi para o banheiro.


Olhou-se no espelho, reparou nos fios grisalhos que cresciam, sem autorização, na sua barba ruiva, notou que os seus olhos perdiam o brilho dia após dia. Começou a pensar na sua vida, nos planos perdidos. Foi interrompido pelos gritos histéricos da mulher incomodada com os berros da filha.


Pegou um copo de café fraco e nauseantemente doce, acendeu o primeiro crivo do dia. Pensou em Laura e em como seria bom acordar nos braços dela, sempre tão receptivos.

Saiu atrasado para pegar o ônibus, passou antes no boteco para comprar um maço de cigarros e depois bateu cabeça pra São Jorge.


Durante o trabalho, pela quarta vez na semana, a colega da esquerda o chamou pra uma rapidinha no vestiário. A diferença entre ela e a mulher era a bunda, somente isso, mas era melhor que ficar carimbando recibos.


Voltou pra casa. Não havia mudado muita coisa por lá durante o dia.

Mal dava para comer com aquele cheiro do remédio para as varizes que a sogra usava nas pernas.

Depois de assistir as notícias que passavam na televisão, na companhia de uma cerveja quente, foi para o quarto e fez sua obrigação como marido, uma trepada rápida e barulhenta para a mulher poder dormir, e assim não se incomodar com a voz aguda que ela tinha.


Era alto da noite e ele ainda acordado, com olhos ativos e mãos em busca de algum prazer real. Foi para a janela da sala e lá a lua iluminava o rosto de Laura.

Tinha prometido a si mesmo não mais procurar os receptivos braços de sua amante amada, mas a solidão o sufocava, a angustia lhe causava úlceras pelo corpo inteiro. Não resistiu, abriu a porta e foi para o jardim dos fundos.


Fez suas juras de amor e paixão louca, beijou intensamente cada parte daquela imagem viva da Vênus.

Chorou como criança sentindo o calor daquele corpo, a excitação de ter aqueles seios miúdos entre as mãos rasgava-lhe as calças.

Sentiu o prazer que tanto queria, que tanto buscava em outras mulheres, mas só Laura sabia o dar. Adormeceu aos pés dela com um sorriso leve de gozo completo.


Do quarto a mulher, tonta pelo o sono, observava-o entre as flores e sob aquela velha estátua de mármore que enfeitava o jardim, sem entender muito bem o que de tão maravilhoso o marido via naquele monte de pedra em forma de mulher.

Quase paz.

Hoje vejo seu rosto com clara vida.

Hoje posso oferecer o que a lua me exige.

Há dias tenho sonhos de luxúria viva.

Há dias desejo tua língua feito faca romper a minha.

Meus instintos desnudam-se ao buscar teus olhos

E o teu cheiro embebeda-me, vagueia em desordem pelo meu corpo.

Procuro o veneno em tua face escondida para poder morrer.

Procuro o teu sagrado para poder viver [...]

O mal.

Não te convences que de nada adianta jogar para fora tudo que resta, culpar a vida, a sorte, o destino, as cartas e os búzios por não ter alguém que devore o que dia após dia apodrece dentro de ti e ainda continuas ali, parado, gritando e gemendo, fazendo promessas e pedidos para todos os santos, negando, fugindo, decorando mapas e sons, temendo, desejando, amaldiçoando as ilusões que fedem e afastam até aquela que apodrecia ao teu lado, que estava acostumada com o cheiro horrível que teu sangue e todo resto do teu corpo emitia e hoje tua única companhia são os germes que brotam do teu sexo e devoram tua consciência e coração. Ainda grita e implora para ser a comida de alguém que se alegraria com esse rosto pálido e sem vida e não percebes que está morrendo e é essa tentativa desesperada de servir e amar que te consome em espasmos intermináveis de dor e angústia. Acreditas que eu sou a culpada por essas mazelas, mas nem ao menos sabes que no instante em que te dei a mão tu já fedias e tudo que em mim foi tocado por ti virou câncer mas, fiquei, ainda que doesse, tentando te proteger, pois me tocava muito mais te ver contaminado e perdido do que sentir os caroços que nasciam em mim à cada tentativa de retorno.
E aqui, dentro de mim, nada apodrece, nem mesmo você.

Texto originalmente postado no dia 05/09/2008.
Título atual baseado no texto-resposta "A Cura", postado no blog Cem e Meio
Clique aqui para ler o texto "A Cura"

Ad corpus.

- Você viveria para sempre ao meu lado?
- Essa vida e todas as outras!
- Você daria a vida por mim?
- Daria três vezes, se assim fosse preciso!
- Você me ama?
- Querida, assim você exige muito de mim! Já disse que te dou minha vida, mas deixa o amor de lado. Agora venha cá e deixa eu entrar em você!

1967.

Eram gritos desesperados de heroína, visões loucas de ácido. A guitarra de Zappa zunia nos tímpanos. Uma voz ao fundo pedia por exorcismo. A menininha do quarto ao lado gemia de tanto tesão, o sexo pulsando no ritmo de “The Return Of The Son Of Monster Magnet”

Dois corpos idênticos e nus; o mesmo sexo e o mesmo desejo. Eles usaram a mesma seringa, sentiram as mesmas picadas; lamberam o mesmo cartão de cocaína, fumaram o mesmo baseado e naquela noite dividiram a cama, trocaram suor. Eles tinham o gosto um do outro na boca, e nela jorraram seus fluidos e sussurraram desejos.

A mão amarelada pelo cigarro de um acariciava o peito nu do outro, a língua do outro percorria o sexo de um. Barba de ambos roçando com fúria.

O sol do meio-dia iluminava os rostos satisfeitos. Deram-se as mãos, cheiraram mais uma carreira e saíram.

Hoje, depois de anos, se encontraram por acaso na rua em que zuavam. Deram apenas um sorriso amarelo um para o outro. Seguiram retos no caminho deles, mas lembraram daquele dia, daquela noite. Sentiram uma estranha pontada no peito. Lamentaram em segredo Zappa não tocar mais em suas casas, não era mais 1967.

não é mais a menina das terças.

Porque hoje é terça-feira e sexta, essa agora, te levarei na casa dos fundos da rua 12, tem flores lindas por lá, pétalas brancas e espinhos vermelhos. Eu vi esses dias e pensei em ti no mesmo instante. Desconheço o nome, na verdade eu só não tenho certeza qual é o verdadeiro, mamãe chama de um jeito e a moça lá da esquina de outro. Mas isso não importa. Ah, como elas lembram você, e mesmo assim você sairá correndo de volta pra tua casa pra chorar e ainda vai gritar que não tem como essas flores parecerem contigo pelo simples fato de achá-las muito lindas pra isso.


Porque você pediu uma porção de polenta frita com bastante molhinho naquele bar da semana passada. Estava tudo em seu devido lugar, a polenta, o molhinho numa bandeja tão linda que chegava a enjoar e mesmo assim você mandou tudo as porras e decidiu ficar apenas na cerveja.


Porque você faz com que eu me veja de frente, de uma forma não vista antes, uma maneira cruel e despudorada.


E é por isso que te escrevo.